Overview

Biografia

Cachoeira Dourada, MG/GO, 1955. Vive e trabalha em São Paulo.

Na produção de Shirley Paes Leme as formas de expressão são diversas, incluindo instalação, vídeo, desenho, pintura, escultura e gravura.

À artista interessa a literatura, o resíduo, o resto, o rastro das coisas fugazes e fluidas.

O trabalho de Shirley possui caráter dicotômico entre o memorial de sua infância no cotidiano da fazenda, na cozinha com fogão a lenha, na fuligem, no barro e na presença do galho; e o ambiente urbano, como a fumaça dos carros das grandes cidades.

Seus desenhos feitos com fumaça marcam sua trajetória. Assim como os desenhos feitos com substâncias cítricas, na técnica que a artista denominou ‘pirofitografia’, que oferecem registros de uma série de pequenos gestos que tentam reter o volátil, o efêmero.

Em sua pesquisa, desde os anos 80 o metal tem sido, junto com a madeira, o elemento para sua produção tridimensional. Em produção recente a artista incorpora metais como o bronze e o alumínio para esculturas que parecem derreter e questionam nossa noção sobre gesto, matéria e tempo.

Participou em exposições nacionais e internacionais, tendo sido a única brasileira na “XV Bienal Internacional de Lausanne”, na Suíça, 1993 : VII Bienal da Polônia, 1995; “Die Anderen Modernen”, Casa das Culturas do Mundo, Berlim, 1997; II Bienal do Mercosul, Porto Alegre; VII Bienal de La Habana, Cuba, 2000. “Século XX: Arte do Brasil”, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Portugal; Bienal de São Paulo – 50 anos, São Paulo; e “Côte à Côte – Art Contemporain du Brésil ”, Musée Art Contemporain de Bourdeaux, França em  2001;  X Bienal do Mercosul, Porto Alegre, 2015; I Bienal Sur, Buenos Aires, Argentina, 2017; XIV Bienal de Curitiba, 2019.

Seu trabalho está presente em importantes coleções no Brasil e no exterior, tais como: MAM-SP; MAC-USP-SP, Museu Nacional em Aalborg, Dinamarca; Pinacoteca da Cidade de São Paulo; Instituto Cultural Itaú, São Paulo; Gilberto Chateaubriand, Rio de Janeiro; Bernardo Paz, Inhotim, Minas Gerais; Museu de Arte de Brasília, Brasília; Museu de Arte Contemporânea do Ceará, entre outras.

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Exposições

Textos

A semântica, os significados e as simbologias das palavras são constantemente usados na produção da artista Shirley Paes Leme. São forças que norteiam ideias, agrupam pensamentos e, algumas vezes, constroem conceitualmente os trabalhos, como nas instalações “Lá vou eu em meu eu oval” e “Cultura”. As palavras ganham nas obras presença matérica.

 

A definição de rarear é tornar-se raro, menos denso, menos frequente. Rarear é a palavra que a artista usa para nomear sua exposição na Galeria Raquel Arnaud. No entanto, como nome da exposição, a palavra ganha uma letra maiúscula, que destaca a presença da palavra “Ar” na composição de “rarear”.

 

Se uma das questões centrais na produção de Paes Leme é a matéria, seja em sua transitoriedade ou nas marcas que certas ações sobre ela podem produzir, vale lembrar que o próprio “vazio” do espaço, o ar, é ele mesmo matéria. Em um de seus escritos, Leonardo da Vinci teceu ideias sobre a relação entre o vazio e as coisas que ocupam o mundo. Segundo da Vinci, o ar “está cheio de infinitas linhas retas e radiantes, entrecruzadas e tecidas sem que uma ocupe jamais o curso de outra, e representam para cada objeto a verdadeira forma da sua razão (da sua explicação).

 

Em “Resíduos da cidade”, iniciado na década de 1980 e desenvolvido pela artista até hoje, Shirley remove filtros de ar condicionado de carros para realizar desenhos e composições. Esses filtros de feltro sanfonado chegam para a artista tingidos de diversos tons de cinza, resultado da fumaça filtrada na passagem do ar. Junta-se à questão das palavras a matéria em si. Os desenhos da artista se constroem com matéria.

 

Nesses desenhos do que foi capturado no ar da cidade, os filtros se abrem carregando as marcas das dobras originais ou se articulam pelas dobras em composições. Carregam uma geometria que ora se planifica, ora se lança suavemente para fora do plano. Com um removedor, parte desses filtros são trabalhados em um desenho feito pela remoção da matéria negra. São desenhos sem marcas precisas, constroem-se em manchas de degradê, entre peso e leveza. Eles explicitam o peso do ar, registram a cidade e são eles mesmos a própria cidade impregnada.

 

Já em “São Paulo à noite: Poema Concreto”, de 2014, três estantes repletas de livros de diversos assuntos estão pintadas de negro. As únicas informações que se fazem ver são poucas palavras nas lombadas dos livros, cuidadosamente eleitas pela artista. O que se constrói é um skyline, uma massa constante e similar que, como imagem icônica, lembra o desenho do horizonte das grandes cidades. Assim como nós habitamos as cidades, no trabalho as palavras habitam o skyline, e se nossas histórias também constituem a identidade da cidade, aqui a cidade também se faz de histórias, das mais diversas possíveis, cheias de singularidades, como as cidades. 

 

Talvez certa estaticidade banhe a exposição como um todo. Mas ela está presente justamente para apontar para a cidade em sua solidez matérica, presentificando também seus fluxos imateriais e o próprio ar que respiramos neste exato momento.

 

Douglas de Freitas

Agosto de 2019