wolfram ullrich_ ambiguidade construtiva e ativação do espaço
02 set - 30 out_ 2026
Dos dias 02 de setembro à 30 de outubro, a exposição “Ambiguidade construtiva e ativação do espaço”, com texto crítico de Guilherme Wisnik, reúne um conjunto de obras inéditas de Wolfram Ullrich, que tomam partido do ilusionismo como maneira de se compreender a relação entre objeto e ambiente de forma ativa. Feitas de matéria rígida, como aço, as superfícies monocromáticas de Ullrich são testemunhas não somente da própria materialidade inabalável, mas também dos fenômenos ópticos que submetem as obras à perspectiva móvel de cada observador e fazem com que pareçam flutuar no espaço.
Ambiguidade construtiva e ativação do espaço
Texto crítico_Guilherme Wisnik
Relevos rasos constroem a ilusão de um espaço profundo, perspectivo. Precisamos nos aproximar deles para entendermos que não se trata de um efeito imagético, bidimensional, e sim de volumes reais que se soltam levemente da parede. A cor vermelha, intensa e inequívoca, dá corporalidade ao conjunto serial, mas não expressividade. Com escala arquitetônica, o trabalho tematiza a própria existência da parede-suporte, e sua neutralidade, assim como a presença da escada da galeria, situada logo em frente. Nesse sentido, se apresenta como um site specific, embora a especificidade não seja uma condição de existência do trabalho.
Alemão, Wolfram Ullrich atualiza a tradição do abstracionismo geométrico em chave contemporânea. Herdeiro da Bauhaus e da Escola de Ulm, partilha muitas afinidades com a Minimal Art norte-americana, mas não se prende à sua literalidade. Ou seja, está longe do solipsismo filosófico que vincula a radical exterioridade das formas e dos materiais a uma espécie de microfísica do poder, segundo a qual o que nos resta fazer, em um mundo completamente administrado, é agenciar exterioridades e explicitar a morte do sujeito.
Penso ser fundamental, sobretudo em seus trabalhos de maior escala, o movimento que o corpo dos espectadores deve criar ao redor deles, ativando a percepção como um processo contínuo. Isto é, sua questão fundamental é a instabilidade perceptiva, a parcialidade, já que não há um ponto de vista privilegiado para se observar esses trabalhos, nem, portanto, uma forma estável de reconhecê-los.
Wolfram Ullrich trabalha com materiais industriais, lisos, polidos, exatos. Não identificamos em sua produção qualquer sobrevivência de um afeto artesanal ou expressivo. Mas se os “Objetos Específicos” da Minimal Art norte-americana atestam a crise da pintura nos anos 1960 e 70 e sua reconfiguração como volume e espaço, as pinturas de Ullrich em forma de relevo não recusam o ilusionismo. Ao contrário, tomam partido do ilusionismo como maneira de se compreender a relação entre objeto e ambiente de forma ativa. Seu objetivo não é enganar o olho através de artifícios, afastando-se tanto da Op Art quanto das instalações imersivas contemporâneas, feitas com luz e fumaça, por exemplo. Mas também não é, tampouco, afastar a ambiguidade dos processos de percepção e cognição.
Vivemos em um mundo no qual os espaços real e virtual se veem cada vez mais embaralhados, dada a onipresença do ciberespaço e das manipulações tecnológicas feitas por inteligência artificial. Nesse sentido, a defesa de um literalismo anti-ilusionista, nos dias de hoje, se mostraria claramente ingênua. Alicerçados em uma base racionalista e construtiva, os trabalhos de Wolfram Ullrich não se furtam a incorporar as complexidades do mundo e apostam na percepção ativa como instrumento de reflexão e de posicionamento dos sujeitos em relação às intrincadas teias de relações que nos envolvem.

