etéreas_ amalia giacomini | carla chaim | laura belém | marina weffort
10 jun - 22 ago_ 2026
Etéreas
Paula Borghi
Desde a Grécia Antiga até o fim do século XIX, cientistas acreditavam que, ao olhar o universo com um telescópio potente o suficiente, seria possível encontrar o éter, que até então era tão real quanto a água, a terra, o fogo e o ar. Considerado por séculos o quinto elemento, ele foi interpretado como uma substância física puríssima que preenchia o espaço celeste e os corpos dos astros. Foi somente no início do século XX que ele foi comprovado como uma substância composta pela união de átomos de carbono, hidrogênio e oxigênio, diferente de tudo o que era imaginado. Ainda assim, seu significado segue, nos dias de hoje, pulsando como metáfora daquilo que, no campo do invisível, é capaz de preencher espacialidades múltiplas.
Debruçando-se sobre as características poéticas, formais e holísticas do éter, a exposição coletiva Etéreas reúne trabalhos que articulam espaços preenchidos por vazios ou vazios preenchidos pelo espaço. Nascidas no Sudeste do Brasil nas décadas de 1970 e 1980, Amalia Giacomini, Carla Chaim, Laura Belém e Marina Weffort são artistas que convergem naquilo que é intangível, pois compreendem que, na composição de uma obra física, as áreas em branco ou o ar que perpassa a matéria rígida são tão importantes quanto seu sentido oposto. É pela percepção de que o copo vazio na verdade está cheio de ar que elas observam as sutilezas do mundo.
Com produções pautadas na constância da repetição de um mesmo gesto, Carla Chaim utiliza sincronicamente ambas as mãos para desenhar branco sobre branco, enquanto Laura Belém cria círculos com grafite e fura com incenso o papel japonês e Marina Weffort retira cirurgicamente linha por linha de um tecido. Para produzir, elas partem do corpo em estado quase meditativo. E por mais que não haja uma
representação corporal de suas identidades, sua presença vai além da imagem em simulacro, tornando-se etérea. Por sua vez, é o corpo de quem observa a obra de Amalia Giacomini que desperta a qualidade sensível ao campo etéreo do trabalho de arte, o qual se transforma a depender do ponto de vista. Aqui tudo é volátil, a cada passo a forma escultórica se modifica.
Para além da presença etérea do corpo – sintoma que perpassa todas as artistas à sua maneira – é possível perceber, nos trabalhos aqui presentes, o desenho como possibilidade de espaços vazios preenchidos por aquilo que lhe é subtraído ou adicionado, a depender da referência. Em outras palavras, a falta da matéria só é possível de ser concebida pela sua presença, e vice-versa. Uma vez mais, é no encontro do que é retirado com o que permanece que o vazio deixa de ser ausência para se tornar fundamento.
Inseridos num estado de suspensão, os trabalhos em exposição evocam a ideia do éter imaginado pelos antigos, só que em vez de ser uma substância que preenche o espaço celeste e os corpos dos astros, ele preenche o cubo branco e os trabalhos de arte. É com essa intenção poética que Amalia Giacomini, Carla Chaim, Laura Belém e Marina Weffort habitam o espaço entre. Como outrora escreveu a poetisa Orides Fontela (1940–1988), “Nunca será mais a mesma nossa atmosfera pois sustentamos o voo que nos sustenta”.

