marcia rothstein_

18 mai_ 1982 - 18 jun_1982

marcia rothstein_

Nota sobre pintura de Márcia Rothstein:

Vivemos em um país inventado no processo de colonização: este novo mundo deriva, daí, uma tradição confusa, ao menos diversa, da norma ocidental tal como se efetiva em seu habitat natural, a Europa. Aqui atua a ansiosa busca de regularizar a produção cultural com a história, apontar os anacronismos e o desejo de saber onde se está pisando. Insegurança e incerteza no meio da arte brasileira são um fato- de tal dimensão que a certo momento torna-se mais importante detectar e cercar a produção mais pertinente que investir no seu conhecimento. E, desse modo, o discurso é sintoma: tem sua agressividade voltada contra o ambiente hostil e esquece a questão interior do trabalho da arte como qual teria outro empate, outra relação.

Essas pinturas de Márcia Rothstein são, felizmente, um pouco estrangeiras a esse meio. Por enquanto, estamos diante de uma experiência que apresenta dúvidas e problemas exatos nos trabalhos (na aparência podem até ser catalogados junto a outras pinturas realizadas no Brasil recentemente).

Fazer aparecer a cor, apenas aparecer, e depois a mesma que no segundo momento deixa de ser o que era e se diferencia. Dividir o espaço da tela, assumir prosaicamente a fantasia no título- “figura”- mas manter o rigor do trabalho e submete-lo na superfície a exigência do processo que o enquadra, são alguns dos elementos que se expõem. Deixar aparecer um lado puramente decorativo, voltar, incorporar um outro aspecto abandonado, retomar a questão. São assim essas pinturas. Elas ensinam porque sabem que estão aprendendo a experimentar: essa sua insegurança.

Na maioria das telas está sendo trabalhada, além da cor e do suporte, a questão da transparência e da opacidade. É na opacidade que o mundo se configura, finge não me enganar e se veste do adjetivo concreto, se corporifica para o olhar. A transparência contraria e dilui essa corporeidade. Seus equivalentes mecânicos, imediatos, o pesado o leve, escondem nas sensações o lugar no espírito para onde o opaco e o transparente apontam. Argan, na introdução da tradução italiana da teoria das cores de goethe, conclui abrindo um caminho para pensar o problema. Para Goethe “provavelmente, mais do que os artistas, os verdadeiros artífices da cor são os tintori (aquele que faz a tinta, inclusive para tingir tecidos- os tintureiros-n. do trad.) pode ser que a memória da Enciclopédia reitere esta sua questão, onde era proeminente o interesse pelas técnicas “sociais”das artes e ofícios. Todavia a razão principal era outra: os tintori produzem as cores e as lançam de mãos cheias no mundo. Nas suas mãos, as cores são como um bosque nas mãos dos jardineiros. Para eles, realmente, as cores não estão previamente conectadas às coisas: elas as precedem. Não são adjetivos ligados aos substantivos, mas meios dos quais os homens se servem para exprimir em si mesmo a realidade do mundo.

Que anterioridade é essa que substantiva a cor mas ao mesmo tempo dela faz uso, a instrumentaliza “para exprimir em si a realidade do mundo”? Essa passagem de cor substantiva e cor instrumento para efetivar depende da ação da transparência e da opacidade. E que coisa mais “neutra” que esse suporte que às vezes tão leve deixará apenas espaço para o diálogo entre a opacidade e a transparência da cor? Na empiria da tela, esse espaço dirige nosso olhar para a questão do tempo na linguagem pictórica. Não o tempo histórico – necessariamente social – mas este outro tempo que me organiza interiormente e me põe no mundo sem que eu o controle e permite que eu veja momentos simultâneos e diversos de opacidade e transparência na mesma cor, na mesma pincelada, no mesmo traço. Aqui começamos a formular o problema e a pensar no que estamos vendo.

Paulo Sergio Duarte

 

imagens da exposição