cassio michelany_pinturas

25 apr_1995 - 27 mai_1995

cassio michelany_pinturas

FULANO, SICRANO, BELTRANO

Rodrigo Naves

 

Cassio Michalany lida com as cores de maneira distancida, quase displicente. Se pode permutá-las como as permuta, por certo não vê nelas um sentido irrevogável ou um conteúdo expressivo particularíssimo, que as tornasse indissociáveis de experiências singulares. Uma superfície azul pode conviver serenamente com uma área branca, embora a vizinhança de um retângulo negro também ilhe caia bem e não a pertube. Pode ser mais larga ou mais estrieta. Não faz mal. Há lugar para tudo, desde que se trabalhe com jeito. Como alguém que dá ombros diante de uma pergunta ansiosa, esses quadros preferem acolher as várias possibilidades de escolha, em lugar de angustir-se com a perspectiva de exclusão. No entanto,  não estamos às voltas com um tanto faz indolente. 

 

Antes de tudo, convém lembrar que não é assim por dá essa palha que se conquista esse direito de dispor das cores. E por isso Cassio Michalany é um colorista. Meio anônimas, suas telas parecem recusar toda determinação marcada, que as envolva num jogo metafórico ou em vínculos ópticos. Seu aspecto pouco artístico – decididamente estamos diante de um artista sem paleta – parece prescindir de escolhas, gostos, obsessões. Mas essas cores rasas, despersonlizadas, são também mais que um nome, simples mostruário anódino. Seu descompromisso e leveza – a graça proporcionada pelas permutações – exigem um desestranhamento entre as cores dfícil de se alcançar. 

Esses quadros impessoais precisaram se desvencilhar da retórica das cores quentes e frias, da potencialização das complementares ou da interação das cores. 

 

No entanto, dessas estruturas tão despreocupadas surge uma certa unidade, uma impressão inesperada na obra de quem se afastou tanto dos sistemas colorísticos. As exposições de Cassio Michalany no Centro Cultural São Paulo, em 1992 e no Gabinete de Arte em 1993 – ambas de primeira qualidade- , nos faziam vislumbrar uma reversibilidade ded papéis, um círculo virtuoso que sem dúvida abria a existência para nvovos horizontes. Naquelas cores tão pouco idiossincráticas a vida adquiria uma disponibilidade, uma leveza que lembravam o homem novo de Marx, capaz de pescar de manhã, caçar à tarde e refletir ao entardecer. Contudo, essas superfícies de cor impessoais, que não guardem a lembrança de um fazer paciente e zeloso, conferem um novo sentiso áquela pluralidade: se já não podemos operar utopicamente sobre os materiais, na esperança de uma coletividade fundada num trabalho generoso, resta essa diversidade de situações que o homem comum contemporâneo- bancários, profissionais liberais, gente do triste setor de serviços- precisa enfrentar. E isso sem as identidades – classistas, corporativas, políticas ou familares – que até há pouco lhe davam algum calço e expectativas. 

 

Indiscutivelmente o trabalho de  Cassio Michalany tem dívidas com o minimalismo. Essa relação prática com as cvores, radicalmente antifundamentalista, supõe um artista que pôs de lado a intenção de ordenar forte e diferenciadamente o mundo, procurando antes propor relações que devolvem os indivíduos a um âmbito – a dimensão pública – que mesmo a com as cores de coisas dadas, que portanto nos liberam para a compreensão de sua relações e não de seu simbolismo. Cassio Michalany acredita nessa autolimitação realista, num mundo em que arate parece já não ser modelo surge dessas telas despretensiosas e absortas. Não se trata, é claro, da nova forma de identidade, livre das amarras da razão instrumental, como na pintura de Matisse; nem do espessamento dúbio do que é raso, como na obra de Brice Marden, com seu tonalismo ambíguo, no qual as relações de cor rebaixadas e a encáustica retiram a geometria de sua segurança regular, pois lhe devolvem uma corporeidade que a geometria não poderia aceitar; tampouco lidamos com a autonomia da pintura de Eduardo Sued, que reúne todas as cores para festejar sua singularidade. No trabalho de Cassio Michalany a alegria tem algo das confraternizações de fim de tarde, quando, após uma jornada de trabalho, as pessoas procuram ser mais do que lhes destina uma ocupação funcional. Suas cores móveis têm algo da gravata afrouxada. Falam dessas transições precárias, de ilusões imprescindíveis: férias na praia, o melhor amigo, lealdade, a fidelidade a uma esposa já castigada pelo tempo. Talvez todas essas facetas não cheguem a constituir personalidades complexas. A dispersão e a fragmentação da vida contemporânea, quem sabe permitam apenas a diversidade de uma coleção de selos. O verde que procura o convívio de um violeta não pensa em potencializações ou intensidades. Procura apenas uma forma de proximidade que não obrigue a deixar de ser ele mesmo, embora tenha que ser tantos.