angular_ alan oju e guilherme callegari

05 fev - 28 mar_ 2026

angular_ alan oju e guilherme callegari

Angular, um ato de vontade

Lorraine Mendes

Podemos dizer do ângulo como a forma que faz a linha hesitar e mudar de rumo com intenção. Uma quebra repentina que projeta uma outra direção de um mesmo caminho, dotado de escolha. Pode ser também um ponto de encontro entre duas direções que não se misturam, seguem adiante, cada uma carregando a memória desse choque/encontro que graficamente representa um gesto silencioso do espaço: ângulo também é uma abertura e um outro modo de ver.

Alan Oju nasceu em Santo André, em 1985. Formado em História e com mestrado em Poéticas Visuais, desenvolve uma investigação que parte de métodos cartográficos para transformar a experiência da cidade em intervenções, imagens, ações performativas, objetos, pinturas e instalações.

Ao percorrer a cidade de São Paulo, onde vive e trabalha, Oju constrói para seu trabalho um campo semântico pautado em um refinamento de formatos e limites impostos pelas relações humanas com o espaço. Sua poética, entre desvios e dispositivos, corporifica como esses limites, físicos e econômicos, ampliados a um domínio político, podem ser recodificados em objetos que traduzem uma aspereza do confronto no âmbito simbólico.

Por meio do seu trabalho podemos pensar em  gestos e sussurros no meio do caos urbano nos quais podemos reconhecer um espaço pequeno, mas carregado de sentido, onde nasce a ideia de controle, querela e tensão, mas também de direção, de desvio e começo. A unidade angular não é só medida, nem número, nem grau: é a memória do encontro, o registro de algo transitório, mas com lastro.

Guilherme Callegari nasceu em Santo André, em 1986. Formado em Design Gráfico, com ênfase em tipografia, ao longo de quatorze anos desenvolveu uma pesquisa consistente na interseção entre design gráfico e pintura. Em sua produção mais recente, a pintura assume centralidade como campo de investigação formal. Ainda que distante da prática anterior, há uma memória residual de um caminho percorrido ora entre grandes avenidas, ora no percurso silencioso de um pintor.

Callegari cria para si um compromisso diário de investigação da fatura e reconhece a pintura como agente. Ao criar camadas de linho, preparo e tinta, ele reconhece também a duração do gesto, o cuidado com cada veladura, um tempo elástico e fugidio diante da temporalidade urbana – ainda que nutrido por ela. O ângulo se horizontaliza em campo de cor, com um detalhe que dobra e revela uma curva.

Neste espaço, os trabalhos de Guilherme e Alan conversam, e podemos tentar captar um assunto comum como se os estivéssemos observando com uma lente angular: com a vontade de ampliar um campo de visão sobre a obra de dois artistas que quase se encontram em suas biografias, em caminhos da Grande São Paulo, em ruídos da fatura de seus trabalhos, em ângulos e curvas que indicam direções que convergem, ainda que aparentemente sigam opostas. Não se afastam totalmente, não se confundem – apenas abrem entre si um intervalo onde mora a possibilidade de que algo poderia ter prosseguido sem desvio, mas preferiu dobrar.