noturno sem pé e cabeça_ iole de freitas

09 abr - 30 mai_ 2026

noturno sem pé e cabeça_ iole de freitas

noturno sem pé e cabeça

Felipe Scovino

Como uma bifurcação onde os caminhos se cruzam, a exposição é dividida em duas partes. No térreo, o conjunto de obras de Iole de Freitas registra a passagem do tempo no hiato entre o entardecer e o nascer do Sol, tendo a cor como ritmo dessa experiência. É ela quem torna perceptíveis as mudanças sutis e vagarosas desse movimento natural – dos tons mais fechados e frios ao vermelho sublime que demarca a aparição de mais um dia. As cores apontam o decurso entre o anoitecer, com a predominância de tons mais escuros ou fechados, e a alvorada. No andar superior, ocorre a escuridão homogênea, caracterizada por um tom anil, violáceo, das obras monocromáticas. “A última presença de um certo noturno antes de começar a clarear”, como afirma Iole. Entre a luz e a escuridão há inúmeras descobertas e acidentes que a obra oferece.

Iole constrói a sua própria forma de documentar o tempo; portanto, ele nunca é presentificado de maneira previsível. Embora a exposição também possa ser interpretada como uma instalação na qual as obras possuem um sistema ou ordem que aponta o intervalo entre a noite e o dia, o que interessa à artista é, sobretudo, a capacidade de interrogação que as obras oferecem. Suas formas, ora côncavas, ora convexas, em muitos momentos confundindo-se com torsos, são um convite ao envolvimento próximo, físico mesmo, do público. E, dessa forma, Iole retarda o tempo para falar sobre ele. As superfícies curvilíneas que entrecruzam planos em um jogo de obliteração e revelação, a cor vibrátil que intensifica a dinâmica de seus volumes, a revelação do oco ou “ossatura” da obra e a expectativa pelo que se esconde por detrás, aquilo que só é revelado mediante a dúvida que lançamos sobre o que está à nossa frente, são escolhas feitas pela artista que pedem o olhar pausado e indagador.

Importante afirmar que não há vazio na obra de Iole. O regime da falta não deixa de evidenciar, pelo contrário, torna ainda mais presentes, no seu trabalho, circunstâncias centrais como peso, matéria, volume, densidade e cor – como é o caso também dos Aramões, apesar de não estarem expostos. A coerência no trabalho de Iole é uma tônica, visto que aspectos fundamentais nunca se dispersam. O vazio age, interfere e é agente de transformação no trânsito relacional que estabelece entre trabalho e espectador. É na sinuosidade das formas e nas reentrâncias e lacunas de uma estrutura fragmentada que efetivamente a obra se faz. Ela é um universo de descobertas, com curvas fechadas cujas linhas são perseguidas na intenção de se desvendar o seu fim, mas também com texturas, rugosidades, superfícies lisas e ásperas que, nesse sentido, a densidade das cores acentua.

As obras são também como as notas de uma partitura ou os intervalos de silêncio numa composição musical. Em particular, Mantos é a síntese dessa vibração sutil, agindo como um timbre. Reduzida ao mínimo necessário, apesar da sua escala, a matéria presente é sempre discreta e precisa nessa série. A incidência do branco e do vermelho, apontando as luzes que determinam o início e o fim do processo cíclico de duração do dia, são como irradiadores de uma pulsão de vida. Como um grande monocromo, Mantos é também, particularmente o avermelhado, a presença da carnalidade, de um corpo com as vísceras expostas. E cabe ao público percorrer com o olhar a densidade desse corpo, com sua superfície sulcada e ligeiramente aveludada. Como em uma lição de anatomia ou em um medidor alegórico de tempo, eis ali pronto a ser dissecado.

Assistimos a uma transição da luz e estamos imersos em um processo no qual o tempo está contido em um estágio de lentidão; onde as formas orgânicas dessas esculturas nos fazem perceber a passagem desse fenômeno natural sob outras perspectivas, isto é, ao especularmos sua topologia e seus cromatismos, investigamos com mais precisão e morosidade a relação entre volume e cor. É como se o tempo e a luz ganhassem, ainda que simbolicamente, materialidade (ou carnalidade?), mas agora posta em diálogo com o corpo do espectador.

A passagem pelos inúmeros tons de violeta, laranja, coral, vermelho e, finalmente, pela luz encarnada do Manto rubro condiciona não só uma estrutura temporal, mas evidencia a cor como a marcação desse acontecimento da ordem da transcendência. Contudo, embora haja uma ordem sequencial, as obras detêm a sua autonomia. Além disso, há o exercício de uma teatralidade que se dá de diversas formas: além da composição desses atos que levam à experiência do alvorecer, como já dito, a artista investe em uma disposição espacial das formas que acaba por dar ênfase a um aspecto dramático. O movimento nunca deixa de acontecer, tudo está a vibrar, ainda que o regime de temporalidade dessas mudanças seja pela ordem da brandura. O modo, por exemplo, como a obra é disposta faz surgir uma diagonal que induz dinâmica. Por conta da secção de seus planos, uma operação é traçada: volumes são abertos à especulação, assim como revelam curvas cujo fim não podemos ver, mas apenas imaginar a sua sequência. Há um jogo de visualidades, a depender do ponto de vista adotado, que varia entre a abertura e a sutil oclusão. As formas serpenteiam, nessa metáfora do corpo em deslocamento, a tal ponto que a obra parece deixar para trás pedaços de si.

A teatralidade também se dá na operação de vertigem que as obras anunciam. Há a iminência da queda porque o corpo da escultura, lembrando a imagem do torso, encontra-se em estado de tombamento. Não é qualquer corpo porque, como o próprio título da exposição aponta, ele é mutilado. Acéfalo e inerte, esse corpo desaba. As partes mais delgadas e pontiagudas, particularmente na série informalmente chamada pela artista de Descabeladas ou Algas, ruem acentuando a experiência dramática. A plasticidade orgânica dessas obras caminha para uma atmosfera inquietante e aterradora. A pesquisa de Iole se faz historicamente também pelo índice de um corpo partido. A fragmentação que aparecia nas fotografias e em seus filmes, se pensarmos nas suas primeiras obras, adquire, nesse caso, um aspecto novo, mais denso e plástico – onde o peso e a gravidade e, claro, a cor passam a ser cada vez mais atuantes e postos em tensão – sem a necessidade de referência literal ao corpo humano. Filmes como Light Work investigam o estado de translucidez da matéria, em um ambiente onde tudo parece se dissolver, bem como do próprio corpo da artista, que aparece como a imagem de uma sombra, um hiato entre presença e ausência. A ameaça desse estado de fragmentação, revelada por meio da imagem de um espectro, é trazida, como uma parábola, guardadas as suas especificidades, para o conjunto de obras desta exposição. Visualizamos, por que não, espectros de luz que se confundem com corpos.

Quando Iole torna flexível o aço, material que é identificado como próprio do campo da indústria, outra qualidade é trazida. Nessa operação, existe a gestualidade que torna as linhas curvas combinada a um investimento pictórico que realiza a fuga de uma racionalidade precisa e determinada. De modo geral, com poucos pontos de fixação, sua forma arqueável, transparente e sedutora tenta vigorosamente escapar do enquadramento ortogonal e busca – com suas torções e por meio de uma estrutura que mais reforça a sua condição de parte, sustentando a ideia de que é algo muito maior do que aquilo que vemos – um espaço para além dos limites da superfície planar.

O horizonte, um campo sempre a ser tramado e instável quanto à sua permanência, é mais uma idealização do que um lugar concebido na exposição. Engendrar a mobilidade de uma linha e simultaneamente de um tempo fugazes é um interesse de Iole que se converte nessa experiência de aludir ao “horizonte noturno”. Formar uma espécie de linha contínua, próxima aos olhos do espectador, acentua essa concepção de paisagem sob o regime da escuridão em contraponto à experiência solar do térreo, mas, acima de tudo, torna o público ainda mais íntimo dessa aventura fenomenológica onde aço é metaforicamente corpo. Essa representação simbólica ganha mais consistência na forma como as linhas se tornam gestos flexuosos; há um empenho intenso e decisivo da mão da artista na construção fluida do traço junto com a escolha cromática. A torção é a expressão de uma tensão irresolvida e de um gesto inevitável de mudança. Suas manobras são dobras no espaço que fazem com que a obra se expanda, cresça e necessite cada vez mais, não importa sua dimensão, de espaço para “respirar”. A gestualidade das linhas se confunde com uma dança, formação de origem da artista, adicionando a torção para construir um vocabulário onde as contradições ganham destaque: um corpo que baila em um espaço simultaneamente preciso e fugidio, bruto e lírico, tenso e distendido de presença substantiva sem perder um caráter de encantamento. E não é “só” o corpo quem ginga, a cor é também registro do que está em trânsito. Ela corre sobre a superfície emanando uma luz pujante que irradia por todo o ambiente. É o momento em que a cor flutua, acentuando um caráter expansivo que figura para além do plano da imagem.

As sutis variações cromáticas das obras localizadas no térreo ou os monocromos do andar superior, como acordes que constroem o espaço reforçando o aspecto teatral da exposição, correspondem à medida do tempo que Iole quer manifestar. Um tempo que se mensura na estrutura da experiência vivida e que, portanto, não se processa de forma linear. As curvas das obras que metaforicamente despencam, ou que se escondem, e projetam um fim que não é visto são sintomas dessa experiência de um tempo que é projetado por nós e não empiricamente calculado.