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MOLDER | PARA TIRAR O SOSSEGO

Simonetta Persichetti - ESPECIAL PARA O ESTADO

AE – Agência Estado
Quinta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Imagens do fotografo português buscam despertar perguntas em quem as observa

O fotografo português Jorge Molder brinca com as imagens assim como com as palavras quando entrevistado. Talvez seja herança de sua formação em filosofia, talvez mera provocação no bom sentido: “A filosofia diluise no tempo, embora tenha deixado marcas em mim”, diz ao Estado na Galeria Raquel Arnaud, onde está com a mostra Não tem que me contar seja o que for.

O fotografo que começou na profissão na década de 1970, e já representou Portugal na 48. Bienal de Veneza, traz para o Brasil uma serie de 42 imagens que, partem do registro de filmes que por algum motivo chamaram a sua atenção: “Não são filmes da minha vida, de alguns nem gosto e outros nem vi, mas são imagens que, de alguma maneira, fazem parte da minha memória, da forma como eu organizo meu mundo”, conta.

Não e de hoje que ele se interessa pela imagem cinematográfica. De uma certa maneira, conta ele, a forma como vemos e a mesma como que o cinema se mostra. “Não existe filme vertical.” Esta serie nasceu em 2006-2007 a convite da Cinemateca Portuguesa. Suas imagens com uma estética bastante densa, noir, se apresentam como algo que esta em constante transformação, como se a imagem não tivesse terminado: a cada olhar mais apurado, há um detalhe a ser descoberto: “Trabalhei as imagens com uma técnica mais próxima da pintura do que da fotografia, criando múltiplas camadas para dar ideia de densidade”.

O resultado são registros que não se submetem a uma tomada a primeira vista, necessitam de um átimo de atenção. Brincam com a percepção em alguns instantes , nos relembram os artistas surrealistas em outro, ao mundo dos sonhos de Freud, pela forma como são criadas deixando transparecer todo um imaginário: “Não sou ligado ao surrealismo, movimento, mas sem duvida nenhuma alguns artistas ligados a ele, como Paul Nouge, Joseph Cornell e o próprio René Magritte, deixaram marcas em mim”, explica. Quanto ao pai da psicanálise, abre um sorriso e afirma provocativo: “Para mim Freud  e o romancista austríaco que mais aprecio. Não o clinico”.

Suas fotografias são o resultado destas suas inquietações, provocações. Como escreve o poeta Fernando Paixão no texto que acompanha a exposição: ” Jorge Molder e um fotografo que pensa a sua arte como forma de pergunta. Artista perguntador. Nesse sentido, pouco lhe interessa a realidade da qual partem os flagrantes, pois a exigência e de que se transformem em “imagos”, recortes provocadores de interesse e duvida. Atraindo o observador para o que não se mostra, fica mantido o suspense”.

Ele se define como fotografo, mas se diz interessado muito mais na relação com as artes em geral do que na fotografia. Muitas vezes e ator principal das próprias imagens, mas não como um jogo narcísico ou um mero autoretrato, mas como uma forma de auto representação: “Como se eu fosse um artista convidado”.

Em geral, Jorge Molder trabalha muito com as imagens em serie, narrativas quase cinematográficas. Nesta exposição, embora o cinema seja o ponto de partida, os seus registros não seguem a sua forma tradicional: “Para esta mostra trabalhei de forma muito desregrada”.

Nas suas fotografias se impõe uma pergunta ate bastante comum diante da arte: vemos ou somos vistos? Questões que para Jorge Molder se aproximam mais das metáforas do que dos símbolos. “Gosto da idéia de deslocamentos e não de definições. Deslocamento de sentido, de afetos, de significados”.

E assim que ele percebe o que produz. Inquieto, suas imagens nos desafiam a decifração e se alguma coisa a filosofia incutiu em sua forma de ver o mundo e esta: “Estou sempre me propondo perguntas, o tempo todo, quase de forma obsessiva”. Nas suas fotografias, ele acaba jogando perguntas também para nos. Deixa-nos livres e daí talvez venha o seu fascínio.

 

Estética noir.

Registros sofrem influencia do cinema, da pintura e atraem pelo que não e mostrado