EXPOSIÇÃO


Simples como o triângulo – Sérvulo Esmeraldo

21/06/2012 a 18/08/2012



"Na sua aparente simplicidade, o Triângulo é na realidade, o “dono” das matemáticas. Dono é pouco. A mais simples das figuras geométricas, com seus três vértices, dinamiza um espaço plástico definido como nenhuma outra forma. Além do mais, imagine, é indeformável.
Reinam sobre nossas cabeças, tesouras triangulares que sustentam linhas, caibros e ripas. Bem observados, os galhos (forquilhas) e as nervuras das folhas são estruturas triangulares. Seria muito longo e sem interesse alongar a lista de seus méritos.
Um triângulo retângulo girando e tendo como eixo um dos seus catetos descreve no espaço um Cone, uma das mais dinâmicas e mais elegantes figuras geométricas."
Sérvulo Esmeraldo, em carta ao amigo Zaza Sampaio



CIÊNCIA DA ARTE


A importância de uma exposição na trajetória de um artista não é ape- nas a de reafirmar a sua presença e a continuidade de sua produção junto ao circuito a que ele pertence mas, especialmente, a de nos ofere- cer meios para reavaliar a extensão do seu trabalho, sua complexidade e suas ramificações.
Além de sua produção no campo da gravura e da escultura, parti- cularmente aquela de escala monumental, a obra de Sérvulo Esmeraldo também se revela na criação de livros de artista, livros-objeto, escul- turas cinéticas e pela sua atuação como agente cultural responsável por iniciativas curatoriais na cidade de Fortaleza. Essa exposição re- presenta mais uma oportunidade de aproximação de uma obra pioneira em diversos aspectos e singular em sua abrangência, de uma produção rica e plural.
Em meados dos anos 80 o artista Eduardo Kac publicou um mapea- mento cronológico das grandes vertentes e dos afluentes experimentais de uma arte de inspiração científica e tecnológica produzida no Brasil.1 Por ele podemos notar o quanto o trabalho de Abraham Palatnik figu- rava de forma isolada no início dos anos 60. Mas para nossa surpresa a retrospectiva de Sérvulo Esmeraldo realizada em São Paulo no ano passado, apresentava um objeto cinético intitulado O Escriba, uma cai- xa-dispositivo de 1962 onde diversas agulhas são movimentadas pela ação de forças magnéticas invisíveis, conferindo a esse objeto uma per- formatividade única na produção artística brasileira da época.
Quando trabalhava como professor da Bauhaus, o artista húngaro Moholy-Nagy publicou um estudo intitulado “Os cinco estágios de evo- lução da escultura do ponto de vista do tratamento dos materiais”2, no qual ele afirmava que a evolução da escultura podia ser sintetizada da seguinte forma: do tratamento estático da massa ao movimento. No seu estágio mais avançado, o artista definia que a escultura cinética seria responsável não só pela inclusão do movimento real (e não mais representado) na dimensão da obra de arte, como também pela criação de “volumes virtuais” derivados desse cinetismo. A partir daí a escultura seria entendida como “o ponto médio entre o volume material e o volume virtual, entre a compreensão táctil e a compreensão visual da matéria”. Neste contexto os Excitáveis de Sérvulo Esmeraldo, esculturas acionadas pelo espectador que estimula os elementos internos da obra pelo atrito estático, marcam a contribuição desse artista ao movimento internacional da arte cinética por sua singularidade e invenção, pela ausência de um motor elétrico como fonte de movimento repetitivo e
regular. Nos Excitáveis “o corpo é o motor da obra”. Tal como O Escri- ba, eles são evidências artísticas de que os fenômenos que ocorrem no mundo físico têm a sua origem num mundo de dinâmica invisível. Ou como afirmou o artista, “(...) não posso evitar de pensar nas forças invisíveis que, por minha intervenção, foram de uma maneira ou de ou- tra, alteradas.”3 Sérvulo adota uma “atitude artística diante da ciência” quando pesquisa e trabalha com a energia latente dos fluídos imponde- ráveis, com o magnetismo, ou ainda quando projeta criar um arco-íris com água espargida na região central de sua cidade. Seus Teoremas, esculturas lineares sem o relevo real, são construções geométricas que não se limitam apenas aos contornos de seu traçado material feito em aço, mas também se expandem pelo ambiente na forma de suas som- bras. Com elas o lugar em que o trabalho se instala é delineado por linhas que atuam como extensões desmaterializadas da peça no am- biente. Volumes virtuais.

Mario Ramiro

1 Eduardo Kac. The Brazilian Art and Technology Experience: A Chronological List of Artistic Experiments with Technosciences in Brazil, 1986.
2 Moholy-Nagy, L. Von Material zu Architektur. Bauhausbücher 14, 1929.

3 Sérvulo Esmeraldo, texto para a exposição L’idée et la matière, galeria Denise René, 1974.