EXPOSIÇÃO


DESORDEM CRIATIVA | ARTHUR LUIZ PIZA

10/11/2011 a 23/12/2011



Relevos Flutuantes

Mais uma vez Piza nos coloca problemas da superfície: como do bidimensional irrompe o tridimensional e surge a primeira manifestação do relevo. De maneira surpreendente a sempre nítida oposição entre figura e fundo dá lugar agora à construção de um espaço flutuante. Aqueles elementos que antes se destacavam em forte contraste, afirmando a planaridade, agora como se desarticulam em unidades separadas e distantes no mesmo plano ou em planos superpostos, imersos numa tridimensionalidade fluída e dissolvente em que as figuras encontram-se suspensas, voláteis, soltas. Aéreo, penetrável, envolvente, o espaço criado por Piza é cheio de sugestões e sugestivo; evoca tanto as formas geométricas de Malevitch como os aramados de Iole de Freitas. As figuras parecem como se estivessem soltas, livres e, portanto como se fossem móveis. Temos então um inédito relevo em profundidade. Sem dúvida esta nova série de trabalhos se relaciona diretamente com aquela realizada sobre sisal. A trama eriçada e caótica do sisal era confrontada pela absoluta limpidez das placas de metal. Agora a trama geométrica do aramado nada mais é do que o sisal esgarçado; a superfície aberta em espaços regulares: a grade espacial afirmada plenamente. O desenvolvimento do relevo em Piza sempre se problematizou com o pictórico, com a oposição figura fundo; oposição que agora encontra uma síntese imaginativa. A grade é contínua, infinita, pode ser cortada e recortada, é o mesmo espaço sempre - do mesmo a superposição das grades. Portanto é irrelevante a dimensão ser maior ou menor, a mesma questão persiste tanto na primeira quanto na última. Assim Piza pode ir de uma à outra.
O que surpreende nos trabalhos atuais agora é a radical redução de escala que Piza realiza. Quando diminui a dimensão dos trabalhos, ousadia tentada com sucesso apenas por alguns seletos escultores, como Calder e Giacometti, Piza encontra paradoxalmente outra expressão monumental, monumentos liliputianos, miniaturas monumentais porque verdadeiros átomos escultóricos; partículas com a maior densidade possível. Estas pequenas concentrações, tanto momentos explosivos como, talvez, fragmentos de uma grande explosão; resquícios arqueológicos da obra, encontrados no ateliê e cuidadosamente recolhidos e individualizados em cada caixa como organizados para uma mostra de possíveis testes – a caixa também é um o recipiente que contém a energia escultórica. Temos aí uma espécie de arqueologia do próprio trabalho, em cada caixa um exemplar diferente, uma nova “descoberta”, um “redescobrimento” de possibilidades - a própria superposição dos aramados nos trabalhos de maior dimensão é uma indicação de camadas “arqueológicas”; de uma seqüência de espaços revelando tempos diferentes. Esta redução radical da escala produziu também pequenos totens construtivos, peças verticais realizadas com operações mínimas, sintéticas, mas de uma concentração invulgar – só assim a diminuta escala pode se sustentar. Esta inédita desordem criativa, típica do laboratório que é o ateliê, parece ter causado a desarticulação da ordem orgânica presente em alguns momentos importantes da obra de Piza. Aqui os losangos, triângulos, retângulos metálicos, formas agudas e cortantes, se opõem à agregação/desagregação celular anterior: a superfície viva se transforma em espaço da vida que se manifesta na tensão que emerge de superfícies geométricas dispares e da dissolvência da superposição dos aramados. 
Nunca talvez a cor monocromática foi tão decididamente presente na obra como agora. As formas geométricas irregulares - formas que são recortes de cor – , que tanto remetem a Malevitch, absolutamente planares e monocromáticas são áreas de afirmação absoluta quando à frente do caos dos aramados, mas logo vão se dissolvendo, perdendo a nitidez quanto mais se aprofundam e se afastam da superfície, mergulhando num espaço de dissolvência da clareza ótica. A superposição dos aramados forma um espaço obscuro em suspensão, flutuante, na penumbra, onde as formas e cores não se apresentam nitidamente; a ausência de fundo parece lançar as figuras numa área incerta, num espaço indefinido e misterioso, onde a racionalidade abstrata da geometria fica em suspenso e se revela o fundo incerto em que as formas aparecem e desparecem; uma poética região poética da clareza e da penumbra, que interessaria a Bachelard.
A realização desta espécie de colagem tridimensional em planos superpostos de aramado geométrico, não chega a produzir o efeito moirée como em Soto, mas está próximo, porém diferente, já que em Piza a impregnação visual é mais lenta e mais densa, mais introvertida que extrovertida, mais de profundidade que de superfície, de uma tensão entre o efeito puramente ótico e a lentidão da absorção pictórica. Em ambos porém realiza-se uma mesma experiência de indagação sobre a persistência e as possibilidades da uma racionalidade visual. 
Após mais um século de sua aparição a construção geométrica se renova e se reinventa nesses relevos. Uma vez mais.
Paulo Venancio Filho